quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Dilema...

O balanço da presidência europeia de Nicolas Sarkozy é um verdadeiro dilema.

Dificilmente se pode ficar indiferente perante um presidente que sabe o que quer e enfrenta os problemas de frente, arregaça as mangas quando é preciso, sacode regras e hábitos absurdos, e não hesita em colocar os recalcitrantes perante as suas responsabilidades - "Ai esta posição não é negociável? Então prepara-te para ir lá fora assumir a responsabilidade pelo fracasso" das negociações sobre o clima, contou o próprio Sarkozy que disse a um dos seus pares (provavelmente o primeiro ministro húngaro) durante a cimeira europeia da semana passada.

Para os jornalistas, é particularmente estimulante lidar com um responsável político com ideias claras que vai directo ao que interessa, e não esconde a sua incompetência ou falta de coragem política com conversas redondas a propósito de "processos", "dinâmicas", "consultas", "concertações" ou "reflexões", como costumam fazer muitos políticos que conhecemos bem demais

Os europeístas terão alguma dificuldade em não tirar o chapéu a uma presidência que, durante seis meses, fez a UE existir e sair-se menos mal de alguns dos problemas mais graves de sempre, e que, em tempo normal e com outro país ao leme, provavelmente se teria dividido em vinte e sete posições contraditórias.

O problema, o grande problema, é a visão da Europa de Nicolas Sarkozy. Mais a energia que já gastou enquanto presidente da UE - com algum sucesso, infelizmente - e vai continuar a gastar enquanto presidente francês, para lhe dar corpo.

A Europa de Sarkozy é a Europa dos Estados, onde, por definição, os grandes são preponderantes e os pequenos vão a reboque. O presidente francês nem sequer se preocupa em esconder que é essa mesmo a sua concepção, quando afirma, como fez esta semana no Parlamento Europeu, que "os grandes países da Europa não têm mais direitos que os pequenos, mas têm mais responsabilidades". Nomeadamente na tomada de iniciativas...

Os seis meses de presidência francesa deixaram claro que está em curso uma dura batalha pelo controle político da Europa e da construção europeia, que não vai ficar por aqui.

É bom que os pequenos países, e Portugal, cujos interesses estão bem mais savaguardados com a Europa comunitária - que, por definição, está virada para o interesse comum - comecem a tratar de si.

No caso português, pressupõe que os nossos políticos comecem a reflectir rapidamente sobre que tipo de Europa querem para Portugal, e sejam capazes de definir estratégias viradas para a defesa dos seus interesses estratégicos.

Pressupõe, depois, que procurem olhar um pouco mais longe do que os inevitáveis fundos estruturais, abram horizontes e deixem de se orientar unicamente pelos oráculos europeus do costume.

Pressupõe, ainda, que tratem de apresentar candidatos como deve ser às eleições para o Parlamento Europeu: gente capaz de perceber onde estão os interesses de Portugal e da UE, e de se bater com pés e cabeça por eles. E não os habituais amigos dos lideres partidários, os membros dos aparelhos ou os políticos incómodos ou em fim de carreira, que não têm nem ideia do que andam cá a fazer...

3 comentários:

DR disse...

A batalha pelo controlo político da construção europeia deve ser tão antiga como o próprio processo.

O mais provável é o apelo aos políticos portugueses cair em saco roto.

E, mesmo que fosse escutado, o mais provável é que acabasse por ser inútil: o Tratado de Lisboa modifica o processo de decisão em favor dos grandes países, o que deixará muito pouca margem de manobra para discutir o que quer que seja em termos de projecto europeu.

Vai-lhes permitir serem ainda mais preponderantes e ter mais facilidade em levar os pequenos a reboque.

pirata disse...

Cara IAC,
Inteiramente de acordo. Apenas uma ressalva: o seu apelo não é apenas relevante agora, já era aplicável há alguns anos atrás.
Os deputados europeus que elegemos são um ponto importante, ao qual acrescentaria outros dois:
- uma verdadeira estratégia de colocação de funcionários portugueses nas instituições; e
- uma cultura (por parte da administração portuguesa) de identificar prioridades políticas para Portugal, e de as prosseguir de forma concertada.
Infelizmente apenas nos damos conta destas insuficências em ambos estes domínios quando estão em jogo assuntos que nem a imprensa consegue ignorar (salvo o devido respeito).
Se trabalhássemos mais nisto estaríamos menos preocupados em ir a reboque de quem quer que fosse, palavra de pirata.
Um abraço e parabéns pelo blog.
pirata

O Raio disse...

"A Europa de Sarkozy é a Europa dos Estados, onde, por definição, os grandes são preponderantes e os pequenos vão a reboque. "

Isto não é a Europa de Sarcozy, é a Europa de sempre.
Quanto muito Sarcozy foi suficientemente descarado para o dizer ou, pelo menos para mostrar que era o que pensava.

Quanto ao restante texto deste artigo não passa de wishful thinking totalmente fora da dura realidade.

Os deputados europeus (e não só) nunca serão gente capaz de perceber onde estão os interesses de Portugal e da UE, e de se bater com pés e cabeça por eles pois pessoas deste tipo nunca se sujeitarão a fazer figura de tanso num pseudo parlamento que para pouco serve.

O lugar de deputado europeu é ou um lugar de fim de carreira de um apparatchik partidário ou então um lugar para comprar alguém que se está a tornar demasiado incomodo mas que ao chegar a EStrasburgo/Bruxelas fica encantado com as regalias do cargo e passa a ser um apparatchik obediente e atencioso.