quinta-feira, 28 de junho de 2007

Adeus Tony Blair

Sei que não é politicamente correcto dizê-lo, mas acredito que Tony Blair não vai fazer grande falta à Europa. Claro que muita gente vai ter saudades do seu estilo caloroso, optimista, da sua enorme energia e do seu estilo oratório excepcional. Sobretudo quando começarem a lidar com o seu sucessor, Gordon Brown, que será, se bem percebi, exactamente o oposto.
Mas, de facto, Blair foi uma decepção para a Europa.
Aquele que é considerado o mais europeísta dos primeiros ministros britânicos dos últimos tempos, falhou redondamente o seu grande objectivo de colocar o Reino Unido no coração da Europa.
O prometido referendo sobre o euro ficou na gaveta. A Constituição Europeia, que Blair apresentou em 2004 ao seu eleitorado como um bom resultado para o Reino Unido – depois de ter diluido grande parte das suas disposições – foi ainda mais esvaziada em 2007 por sua exigência. A iniciativa de defesa europeia lançada com a França em 1998, em Saint-Malo, continua a marcar passo. Os debates sobre o orçamento comunitário foram totalmente inquinados pela sua exigência de limitar os gastos e recusa de corrigir o “cheque” orçamental britânico.
É justo reconhecer, claro, que Blair enfrentou uma imprensa tablóide poderosa e ferozmente eurocéptica, que não lhe deixou grande margem de manobra. Mas também ninguém o obrigou a embarcar no discurso do combate ao “super estado centralizado” e aos eternos fantasmas britânicos, se não acredita neles. Nem ninguém o impediu de se empenhar a fundo na explicação, defesa e desenvolvimento do projecto europeu, se tivesse sido esssa a sua convicção.
Sintomaticamente, Blair empenhou-se a fundo ao lado de George Bush na guerra do Iraque, o que diz muito sobre as suas verdadeiras convicções. Pelo caminho dividiu profundamente a Europa – eu sei, eu sei, há muito quem pense que quem começou a dividir foram Jacques Chirac e Gerard Schroeder, mas não foi assim.
Acima de tudo, Blair, homem de convicções, perdeu o lugar pela guerra do Iraque, não pela Europa.
E, ironicamente, sai de cena seguindo os passos de Margaret Thatcher, lider de convicções e discurso oposto: a ex-dama de ferro recusou a Carta Social Europeia em 1989; Blair subscreveu-a logo que assumiu o cargo, em 1997, mas saiu, dez anos depois, exigindo ficar de fora da Carta dos Direitos Fundamentais. Como Thatcher, por causa dos direitos económicos e sociais...

12 comentários:

Luis_Carvalho disse...

As opções Europeias de Blair foram sempre Very British... Como bem diz, Blair foi um homem de convicções e admiro-o por isso. Infelizmente, a Construção Europeia nunca fez parte da sua lista de convicções. No entanto pergunto, será que existe algum líder Europeu actual que tenha e defenda essa convicção?

Isabel Arriaga e Cunha disse...

A Luis Carvalho: tenho a veleidade de pensar que sim, mas claro, são uma minoria muito minoritária: penso poder citar o belga Guy Verhofstadt (que infelizmente está de saída), o luxemburguês Jean-Claude Juncker, o italiano Romano Prodi...

alexandra lobão disse...

VAI e NÃO VOLTES, Tony!

Aplaudo a IAC por ousar um tal retrato de uma personalidade com tantos adeptos em Portugal.

De quem um dos meus conservadores preferidos e antigo comissário europeu, Chris Patten, diz no seu delicioso livro "Not quite the diplomat":

"Mr. Blair, a usually likeable man, has convictions to which he holds strongly - while he holds them".

Por mim, não terei saudades deste inteligente e insinuante campeão do primado da imagem e da facilidade da fórmula sobre o conteúdo.

Não sentirei falta da sua retórica, do seu europeísmo mais do que relativo e, acima de tudo, da sua tendência para desempenhar na perfeição o papel da "Maria vai com as outras", com uma fidelidade cega e acrítica aos perigosos ideais - que talvez não perfilhasse em segredo - dos neoconservadores que rodeavam George Bush.

Acho que preferirei o austero mas mais sincero, Gordon Brown. Que tem todo o direito de não curtir a UE by the way. Ao menos sabemos com que é que contamos.

Prefiro eurocépticos assumidos aos coitadinhos dos estadistas que se desculpam com as maldades dos jornais que, por acaso, até adoraram manipular até à exaustão.

bernardo disse...

Do ponto de vista de integridade pessoal e qualidades humanas ate posso ter mais simpatia por Gordin Brown, mas em relaçao ao que ele (ou David Cameron caso este ganhe as proximas eleiçoes) podem trazer à UE são,como ouvi dizer ha pouco tempo, "the tunel at the end of the light"...

O Raio disse...

Tony Blair no início da sua carreira política até era ferozmente anti-CEE.
Depois adaptou-se aos tempos.
Mas o que foi provavelmente a sua maior vitória, a que o fará entrar para a História e que nem é citada no artigo foi a paz na Irlanda do Norte.
Foi muito importante e ninguém antes dele o tinha conseguido.
Quanto aos problemas europeus... bah... a UE já terá sido esquecida e ainda haverá Irlanda...

leon disse...

curioso, eu acho que Blair cumpriu com o prometido em relação a colocar o Reino Unido no "coração da Europa" (seja lá isso onde for):

-a UE tem a agenda económica mais liberal dos últimos;

-África passou a ser prioridade da UE depois de ser prioridade britânica;

-a luta contra as alterações climáticas está no topo da agenda da UE depois de ter sido "adoptada" pelo Reino Unido de Blair;

-o presidente da Comissão Europeia é uma escolha de Blair;

-a reforma da PAC/orçamento vai acontecer no timing e moldes britânicos;

-soube defender como nenhum outro país o que considera serem os interesses nacionais do seu país, nem que fosse à custa dos interesses colectivos da União (obteve ganho de causa em todas as reivindicações na negociação da Constituição original e agora no novo Tratado);

-claro que Blair não faz isto sozinho, conta com o medo e a hipocrisia dos outros parceiros. se é tão "malandro" e "egoísta", porque é que os outros países aceitam? não consta que Merkel tenha feito com Blair a mesma chantagem que fez com os polacos, de seguir em frente a 26 caso eles não aceitassem o que os outros defendiam.

isto é o que me ocorre assim de repente. pode não estar no "coração" que todos imaginam para a Europa, ou pode até haver vários corações, mas que os britânicos estão bem entranhados até à medula na UE, disso para mim não há dúvida.

há até quem ironize que Blair deixa o poder e a Europa na altura em que esta mais se parece com o Reino Unido. até pode dizer "missão cumprida".

faz lembrar aquela história sobre o maior mérito do diabo, que foi convencer as pessoas de que não existe...

leon disse...

no primeiro travessão, faltou acrescentar "dos últimos ANOS".

Gabriel disse...

«Pelo caminho dividiu profundamente a Europa – eu sei, eu sei, há muito quem pense que quem começou a dividir foram Jacques Chirac e Gerard Schroeder, mas não foi assim.«

Não foi? Dos 27, 14 enviaram tropas para o Iraque e mais alguns apoiaram-na. Caso a dita constituição estivesse em vigor (com decisões por maioria), a UE teria apoiado firmemente, como um todo tal guerra....

Isabel Arriaga e Cunha disse...

Gabriel,
Essa ideia de que "se a dita Constituição estivesse em vigor (com decisões por maioria), a UE teria apoiado firmemente, como um todo tal guerra....", - a guerra do Iraque - lamento mas não é assim.

As decisões em matéria de Política Externa e de Segurança Comum (PESC) continuariam a ser tomadas por unanimidade dos Estados membros da UE com a Constituição e vão continuar assim com o futuro Tratado de Lisboa. Apenas estão previstas decisões por maioria qualificada para a execução de acções cujo princípio tenha sido acordado por unanimidade do conselho europeu (ou cimeiras de chefes de estado ou de governo). Esta possibilidade não se aplica às decisões em matéria de defesa, que são sempre tomadas por unanimidade.

Ou seja, não é a UE mas os seus estados membros, a título individual, que têm o poder de decidir de participar ou não numa guerra. O que significa que a Constituição não teria alterado em nada as opções dos países da UE a propósito da guerra do Iraque

Isabel Arriaga e Cunha disse...

Gabriel,
Essa ideia de que "se a dita Constituição estivesse em vigor (com decisões por maioria), a UE teria apoiado firmemente, como um todo tal guerra....", - a guerra do Iraque - lamento mas não é assim.

As decisões em matéria de Política Externa e de Segurança Comum (PESC) continuariam a ser tomadas por unanimidade dos Estados membros da UE com a Constituição e vão continuar assim com o futuro Tratado de Lisboa. Apenas estão previstas decisões por maioria qualificada para a execução de acções cujo princípio tenha sido acordado por unanimidade do conselho europeu (ou cimeiras de chefes de estado ou de governo). Esta possibilidade não se aplica às decisões em matéria de defesa, que são sempre tomadas por unanimidade.

Ou seja, não é a UE mas os seus estados membros, a título individual, que têm o poder de decidir de participar ou não numa guerra. O que significa que a Constituição não teria alterado em nada as opções dos países da UE a propósito da guerra do Iraque

Manuel disse...

Pois é, isso é tudo muito bonito mas a história só será escrita daqui a cem anos, pelo menos ...

O Raio disse...

"Ou seja, não é a UE mas os seus estados membros, a título individual, que têm o poder de decidir de participar ou não numa guerra. O que significa que a Constituição não teria alterado em nada as opções dos países da UE a propósito da guerra do Iraque"

Se a Constituição estivesse em vigor provavelmente a União Europeia teria estoirado com a guerra do Iraque.

A situação teria sido absurda, um Ministro dos Negócios Estrangeiros com um imenso corpo diplomático totalmente paralisado, a maior parte dos países a apoiarem a guerra e os dois principais (Alemanha e França) do contra.

Não acredito que a UE resistisse a uma situação destas.

É que os principais inimigos da integração europeia são os seus mais entusiasticos apoiantes. Não duvido que serão os seus coveiros.