quinta-feira, 7 de junho de 2007

Informação e porta-vozes

Cecilia Sarkozy, a primeira dama francesa, vai ter uma actividade diplomática complementar à do seu marido-presidente, contou esta semana o Figaro. Para isso, precisa de um conselheiro especial com a sensibilidade necessária para a orientar nos meandros da política internacional. A célula diplomática do Eliseu escolheu para o cargo Nicolas de la Granville, diplomata de carreira de 45 anos que abandona assim a função de porta-voz que desempenha desde 2004 em Bruxelas na Representação Permanente da França junto da UE (a embaixada «europeia», mais conhecida pela sigla REPER). As centenas de jornalistas de todo o Mundo que, em Bruxelas, se habituaram a confiar na informação séria e esclarecida deste porta-voz não têm dúvidas sobre a sua competência para esse ou qualquer outro posto de relevo na diplomacia francesa. A sua nomeação para um lugar particularmente exposto no Eliseu prova que os seus superiores têm a mesma opinião.

Este está longe de ser um caso único: vários outros porta-vozes que exerceram as mesmas funções no passado regressaram a Bruxelas meia dúzia de anos depois como embaixadores, um dos lugares mais difíceis da carreira diplomática. Em regra, são pessoas de grande dimensão humana e profissional, respeitadas e apreciadas pelos seus pares. O que significa que, para a maior parte dos países, os cargos de porta-voz ligados às questões europeias - tanto os das REPERs como os dos governos - estão longe de ser confiados a principiantes ou amadores. Muito pelo contrário.
Vem isto a propósito de quê? Da diferença abissal que separa Portugal da maior parte dos outros países da UE na relação com a informação e a imprensa.

Os «outros» sabem que o papel destes porta-vozes é absolutamente crucial para explicar interna e externamente a complexidade das decisões europeias, tornar as posições nacionais compreensíveis, suavizar arestas e desfazer eventuais mal-entendidos.

O cuidado na escolha dos que vão exercer funções tão sensíveis e expostas está longe de ser uma preocupação exclusiva dos países de maior dimensão: o actual embaixador da Irlanda em Lisboa foi não há muito tempo porta-voz da respectiva REPER em Bruxelas.

Ao invés, a qualidade da informação será porventura a última das preocupações dos responsáveis políticos portugueses, para quem parece ser mais importante estar rodeado de amigos ou de aliados do que de bons profissionais. O que se traduz inevitavelmente no trabalho dos denominados porta-vozes ao longo do tempo: salvo rarissimas excepções – que faço questão de sublinhar aqui – raramente entram na enorme complexidade política e técnica das questões europeias, que encaram de uma forma pouco mais que aproximada.

Só posso esperar, como a totalidade da imprensa internacional em Bruxelas, que a próxima presidência portuguesa da UE nos traga alguns sinais de mudança. Caso contrário, quando os jornalistas têm ao seu dispôr, em Bruxelas e em várias capitais europeias, vários Nicolas de la Granville, onde será que irão procurar a informação?

8 comentários:

Rui Luzes Cabral disse...

Não estou por dentro desses meandros, por isso não conheço o trabalho e a relevância dos porta-vozes portugueses em comparação com os de outros países. Isabel Arriaga e Cunha diz-nos que a diferença é notória mas já agora gostaria que explica-se melhor essa sua dúvida.

Isabel Arriaga e Cunha disse...

Exemplos? Os bons porta-vozes têm um conhecimento sólido da actualidade nacional e europeia tanto em termos políticos como técnicos. Em regra estão em condições de expôr, em qualquer momento, o quadro completo das negociações europeias nos grandes domínios de interesse para os seus países. Ou para a instituição onde trabalham, no caso dos eurocratas. Sabem tanto, ou quase, sobre cada tema quanto o diplomata ou técnico que o segue no dia a dia. Sabem seguramente mais, no plano técnico, do que os ministros. Conhecem o enquadramento político e os porquês das posições nacionais e sabem explicá-los com coerência. Têm autonomia de acção porque sabem o que fazem. Sabem o que podem e o que não podem contar aos jornalistas. Sabem distinguir os jornalistas a quem podem contar um pouco mais, daqueles a quem não podem. Mesmo se muitas vezes não podem dizer a verdade toda, o que dizem é verdade. E mesmo quando não resistem à tentação de tentar influenciar um jornalista, fazem-no com humor e sem esconder o jogo. Por tudo isto são pessoas sólidas, credíveis e em quem é possível confiar. Os maus porta-vozes são aqueles que consideram que só se ocupam da grande política nacional - leia-se "tricas" - e que isso das coisas europeias é trabalho para técnicos. Que não se dão ao trabalho de ler os "dossiers" preparados pelos técnicos para poder explicá-los aos jornalistas. Que quando acompanham os ministros a Bruxelas ninguém percebe o que lá estão a fazer: muitos não se dão sequer ao trabalho de responder ao telefone, mas não é seguramente por estarem a seguir os debates do conselho de ministros da UE. Não têm a menor ideia do desenrolar das negociações, mas arriscam, quando aceitam responder a perguntas, um "acho que ...", ou seja, o contrário do que interessa aos jornalistas que procuram factos, não opiniões. Dão-se mesmo ao luxo de deixar aos ministros o trabalho de responder às questões técnicas dos jornalistas, deixando-os muitas vezes tropeçar em detalhes que estes muitas vezes não dominam. Ah, já me esquecia: sabem avisar quando "o ministro vai descer" para a conferência de imprensa pós-conselho, acompanham-nos às ditas e gostam de mostrar o seu ascendente arrancando-os da sala quando acham que se faz tarde. Infelizmente, são os porta-vozes/assessores de imprensa portugueses que costumam encaixar nesta última definição. Com algumas rarissimas excepções, como já referi no meu post

Rui Luzes Cabral disse...

Obrigado pela sua brilhante e conhecedora explicação.Percebi perfeitamente as diferenças de acção e postura. Realmente é pena que a maior parte dos nossos porta-vozes não sigam então os bons exemplos dos seus vizinhos Europeus. Até nisto parece que se nota a diferença. Somos mesmo pequeninos, mas como sou um homem de esperança, acredito ainda que tendemos a melhorar e aproximarmo-nos dos restantes.

Alexandra Lobão disse...

Isabel,
A questão pertinente que levanta faz-me recordar o relato de uma amiga sobre a sua formação de (jovem) diplomata portuguesa nas Necessidades.

No decurso da qual a questão da comunicação com os "media" foi, na prática, escamoteada ou então remetida para a divisa "falar o menos possível!".

Em flagrante contraste com o que a mesma amiga aprendera anteriormente, em França, no âmbito de uma formação para quadros estrangeiros no prestigioso ENA - onde a élite francesa se prepara para os seus futuros altos vôos profissionais e/ou políticos.

Rui Luzes Cabral disse...

Será que os "outros" porta-vozes se apercebem que os portugueses são assim? E será que os "nossos" não vêm como se comportam os outros? Por acaso tinha a ideia que quando emigramos deixamos cá a nossa "portugalidade", e quando digo portugalidade não é em sentido prejurativo é fazendo referência simplesmente à nossa mania de subavaliarmos as nossas capacidades.
Bem, mas ultimamente apesar destes porta-vozes "cinzentos" temos tido quadros políticos para exportação. Tivemos Freitas do Amaral na ONU, agora Durão Barroso na UE, Sampaio também na ONU e Guterres nos Refugiados. Será isto um prenúncio de que estamos a mudar, que temos gente de maior qualidade?

Isabel Arriaga e Cunha disse...

Para Rui Luzes Cabral: a resposta é não. Não, os porta-vozes portugueses nem reparam como funcionam os outros. Provavelmente porque acham que está tudo bem como está e que não têm nada a aprender. E sem julgar os quatro nomes referidos, o que há, sobretudo, é que as técnicas de marketing estão a ser melhor utilizadas e as oportunidades melhor exploradas. Há muita gente em Portugal de elevadissima qualidade, que não é aproveitada. Temos exemplos que cheguem de pessoas desse calibre que poderiam ter ocupado cargos de relevo para o país, mas que os perderam por pura estupidez. Estou a pensar, por exemplo no caso de Jorge Vasconcelos que perdeu a oportunidade de aceder ao cargo de director da Agência Internacional de Energia - para o qual era mais do que qualificado e tinha os apoios necessários dos outros países - porque o governo não fez o que devia

Isabel Arriaga e Cunha disse...

Só mais um detalhe: claro que grande parte do problema dos porta-vozes resulta da forma como os responsáveis nacionais encaram a informação e a imprensa. O exemplo referido pela Alexandra Lobão é a esse respeito muito elucidativo

Free Will disse...

"Por acaso tinha a ideia que quando emigramos deixamos cá a nossa "portugalidade", e quando digo portugalidade não é em sentido prejurativo é fazendo referência simplesmente à nossa mania de subavaliarmos as nossas capacidades."

Nao tenho conhecimentos tecnicos profundos sobre a sociologia dos emigrantes politicos portugueses... mas parece-me haver de tudo... desde o embaixador que tem uma embaixada a funcionar como em portugal se trabalhava a 50 anos e que mesmo estando num pais super-desenvolvido nao percebe que algo de errado se passa... ate portugueses que realmente ultrapassaram a sua tuguisse quando chegaram ca fora e viram que e'possivel fazer as coisas de uma maneira mais eficiente.
Acho que a esse nivel depende mesmo da exigencia de cada um e dos chefes que temos... se houver exigencia no ministerio dos neg. estrang. provavelmente teremos melhores porta-vozes... mas para isso tambem e preciso dinheiro ... e para isso é preciso que o governo ache importante valorizar essa vertente...

Como disse (se nao me engano foi ele) o nosso antigo presidente Sampaio: "e' preciso ser-mos exigentes" é só isto que os nordicos tem a mais do que nos... :)